
Já
faz tempo que estou querendo contar esta história,
mas o tempo vai passando e, só agora, com a ajuda do
Pastor Léo Ranzolin, posso faze-lo. É uma simples
homenagem que quero prestar a uma pessoa com quem tive o prazer
de conviver por quase 10 anos, e que foi uma inspiração
para minha vida, um pai, um amigo e um irmão: Pastor
Roberto Rabello. Tive o prazer de ser a única pessoa,
fora do seu circulo familiar, a viver em sua casa por quase
6 meses.
O
Pastor Rabello nasceu na cidade de Santo Antonio da Patrulha,
no Rio Grande do Sul, no dia 15 de novembro de 1909. Lá
completou a escola primária e com 15 anos, foi para
o Colégio Adventista Brasileiro, em Santo Amaro, SP.
Em 1931, tendo terminado os estudos teológicos, começou
seu ministério em Curitiba, Paraná. Em 1940,
foi transferido para o Rio de Janeiro, e em 1941 seguiu para
os Estados Unidos, desembarcando em Nova York e depois prosseguindo
para Washington.

No
ano de 1943, após um teste de voz, o Pastor R. M. Rabello
foi escolhido para ser o orador oficial da Voz da Profecia
para a língua portuguesa. Neste mesmo ano, terminou
seus estudos no Pacific Union College, na Califórnia.
Alem de ter que preparar os 52 programas do ano, ainda tinha
que orientar os cantores do programa; isso requeria horas
de treino de pronúncia em português.
Dentro
de um ano, foram preparados os 52 programas e coleções
de discos foram prensadas e enviadas para o Brasil. Não
sei quantos se lembram daqueles discos grandes, vermelhos.
E então, no dia 23 de setembro de 1943, dezessete emissoras
das principais cidades do Brasil começaram a transmitir
a Voz da Profecia.

O
Pastor Rabello gravou esses programas em Glendale, Califórnia,
e quem diria que 50 anos depois, eu iria viver em um apartamento,
em Glendale, em frente ao famoso prédio número
1500 da Chevy Chase. A janela do meu quarto, onde vivo, dá
de frente para esse local. Pena que dentro de um mês
esse edifício, que hoje pertence ao Hospital Adventista
de Glendale, será destruído, para a construção
de um outro, maior.

O
Pastor Rabello sempre foi um homem estudioso; qualquer tempo
disponível que tinha, lá estava ele estudando,
lendo, escrevendo. Ele estava sempre em dia com tudo que se
passava no mundo; realmente, um homem bem preparado, e foi
usado, como poucos no serviço do Senhor.
Em
1962 a nova sede de A Voz da Profecia foi inaugurada no bairro
de Botafogo, no Rio de Janeiro, com seu próprio estúdio
e seu quarteto, chamado Arautos do Rei. Aliás, a Voz
da Profecia foi o primeiro programa religioso de âmbito
nacional transmitido no Brasil pelo rádio.

Em
1973, tive o prazer de ser chamado para trabalhar na Voz da
Profecia, onde estive por nove anos, como diretor musical,
arranjador e pianista do quarteto Arautos do Rei. Foi nessa
época que pude conviver com o Pastor Rabello e comprovar
que ele, realmente, era um homem de Deus. Eu nunca o vi discutindo
com alguém, nunca o vi de mau humor, nunca ouvi uma
frase que fosse, contra a reputação de qualquer
pessoa. Pelo contrário, quando alguns, com ciúmes
do carisma que ele possuía e do carinho que recebia
do público, quiseram tomar o seu posto, nem nestas
horas ele se abalou. Ele sabia que Deus estava ao seu lado,
e realmente, nada aconteceu.
O
Pastor Rabelo tinha suas peculiaridades pessoais. Ele sempre
guardava os talheres dentro da geladeira e tomava duas colheres
de creme de amendoim por dia. Era também muito metódico.
Sempre após eu chegar em casa e fechar a porta do apartamento,
meia hora depois, lá vinha ele, na ponta dos pés,
para ver se realmente estava tudo trancado. Também
ficava sempre vermelho depois de me ouvir contar uma piadinha
(vegetariana, claro).
Ele
gostava muito de música e dizia que os membros do quarteto
eram seus filhos. Muita coisa interessante e até cômica
acontecia nas nossas viagens. Uma vez, durante um programa,
uma senhora bem idosa, vestida com um pijama, subiu até
o púlpito, no meio do sermão, para cumprimentá-lo.
Outros lhe diziam: “Faz 30 anos que eu ‘ovo’
o seu programa”. Uma vez, a Policia Rodoviária
parou a van da VP, por algum problema. Na preocupação
pelo atraso que esse contratempo iria causar na programação,
o Pastor Conrad diz: “Que fazemos agora, Pastor Rabello?”
O policial ao ouvir isso, pergunta: “Roberto Rabelo?
Da Voz da Profecia?” “Sim”, respondeu o
Pastor Conrad. E o policial completa: “Eu acabo de ouvir
o programa no rádio.” Então, cumprimenta
o Pastor Rabello, e diz: “Vocês estão liberados
e podem ir, mas graças ao Pastor Rabello.”
O
Pastor Léo Ranzolin, que é seu genro, planeja
escrever um livro sobre a vida do Pastor Rabello, e por certo,
muitas outras histórias deliciosas e interessantes
poderão ser conhecidas. Aguardem
Em
novembro de 1984, a revista VEJA publicou um artigo, por ocasião
da comemoração dos 40 anos da Voz da Profecia,
confirmando que, sem sombras de dúvidas, era o programa
religioso mais antigo do Brasil. O Pr. Rabello aposentou-se
em 1976, depois de 46 anos de trabalho e continuou na ativa,
por tempo integral, como Orador Emérito.

Após
longa enfermidade, ele faleceu no bairro de Vista Alegre,
na cidade de Curitiba, no dia 16 de agosto de 1996. De acordo
com sua esposa Edith, naquela manhã ele havia cantado
com o Pr. Conrad, pelo telefone, o cântico Ó,
Que Esperança. Iria completar 87 anos no dia 15 de
novembro. O enterro foi realizado em Santo Amaro, SP, onde
líderes da Igreja Adventista em todo o Brasil, juntamente
com ouvintes de A Voz da Profecia e muitos membros da Igreja
Adventista ao redor do país, homenagearam um dos mais
famosos líderes evangélicos do rádio
no Brasil.
Termino
dizendo: Pastor Roberto Mendes Rabello: Obrigado pelo privilégio
de ter sido seu amigo, seu filho, seu irmão!